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'Viva o Zé Pereira!': conheça a história da marchinha e como sapateiro português no Rio virou ‘mito fundador’ de antepassado dos blocos

"Viva o Zé Pereira!": a história da brincadeira de carnaval que originou os blocos de rua Um punhado de amigos, muito álcool e tambores regidos por um sapate...

'Viva o Zé Pereira!': conheça a história da marchinha e como sapateiro português no Rio virou ‘mito fundador’ de antepassado dos blocos
'Viva o Zé Pereira!': conheça a história da marchinha e como sapateiro português no Rio virou ‘mito fundador’ de antepassado dos blocos (Foto: Reprodução)

"Viva o Zé Pereira!": a história da brincadeira de carnaval que originou os blocos de rua Um punhado de amigos, muito álcool e tambores regidos por um sapateiro português, produzindo uma barulheira insuportável. Essa descrição foi, durante muito tempo, usada para explicar o surgimento, no Rio de Janeiro da década de 1850, da brincadeira de carnaval conhecida como Zé Pereira, que ajudou a formar os blocos de carnaval como os conhecemos hoje. O folguedo — que nasceu abrindo romarias em Portugal e, no Brasil, ganhou espírito gozador de “bloco de sujos” — inspirou uma das primeiras letras de músicas carnavalescas feitas no país. É consenso que o costume do Zé Pereira foi introduzido por imigrantes do Norte de Portugal, justamente em um momento em que imprensa e governo tentavam elitizar a festa, inspirados por desfiles franceses. Ao chegar ao Brasil, a brincadeira se popularizou e passou a ser organizada também em cortiços, onde vivia a população mais pobre da cidade. A versão de que o folguedo teria sido idealizado apenas por um sapateiro português hoje em dia é hoje contestada (veja mais adiante na reportagem). Na época da chegada do Zé Pereira ao Rio, a brincadeira mais comum no carnaval do Brasil era o chamado jogo do entrudo, no qual as pessoas se molhavam com água usando pequenos invólucros - os limões de cera - ou mesmo baldes e seringas. Outras substâncias, como farinha e até vários tipos de sujeira, também eram arremessadas. Outros tipos de folguedos, como batucadas e pequenos cortejos com músicas executadas por pessoas escravizadas e ex-escravizadas, também já tinham sido descritos no carnaval por visitantes estrangeiros como o pintor francês Jean-Baptiste Debret, mas ainda ocupavam pouco espaço nos relatos de viajanes que passavam pelo país ou na imprensa. Segundo descrições da época, no caso do Zé Pereira, sobretudo ao ser introduzido inicialmente no Brasil nos anos 1850, o que se produzia não era necessariamente música, mas uma barulheira desorganizada e gritaria. Um grupo de Zé Pereira em 1907 na revista 'O Malho' Foto: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil O jornalista e historiador Vitor Padilha Mattos, doutorando do PPGHA/UERJ, estudou a fundo a história do Zé Pereira, inclusive acompanhando ao vivo manifestações atuais no Norte de Portugal que continuam a abrir procissões na região. Ele afirma que o Zé Pereira, que no Brasil ganha um formato carnavalesco, foi a primeira oportunidade de o povo protagonizar os cortejos em larga escala. Mattos explica que a configuração original do Zé Pereira está ligada ao acompanhamento de romarias, mas que o costume foi adaptado ao chegar ao Brasil. “No Norte de Portugal, principalmente no período de verão, de maio a setembro, há romarias praticamente todo fim de semana em cada aldeia. Há bastante tempo existem tocadores de bombo e de caixa, que muitas vezes formam um trio com a gaita de foles, já que ali também há uma herança celta muito antiga”, descreve. Ele explica que o termo Zé Pereira geralmente se refere ao grupo de músicos ou apenas ao tocador de bombo — como é chamado o tambor. No Brasil, os registros iniciais da brincadeira datam de aproximadamente 1850. “Em algum momento, alguns imigrantes portugueses saem no carnaval tocando esses instrumentos, e a coisa pega. O mais interessante é que, na época, no carnaval do Rio, a elite tentava transpor o carnaval burguês de Paris. As pessoas queriam acabar com o entrudo, por considerá-lo uma prática rude e violenta, que não condizia mais com a sociedade que almejavam”, explica. Na cronologia mais aceita do carnaval do Rio, na década de 1830, já havia registros de bailes de máscaras de luxo em teatros do Rio. Em 1855, começam os desfiles das chamadas grandes sociedades, grupos formados por jovens membros das elites financeiras e intelectuais, incluindo nomes da literatura como José de Alencar. “As grandes sociedades saíam com desfiles pomposos, carros alegóricos e críticas políticas. Para o povo, cabia ser espectador. Quem desfilava eram os membros dos clubes e sociedades carnavalescas, ligados à elite intelectual e política da época. O Zé Pereira vai ser justamente a primeira oportunidade de quem estava na rua assistindo poder se juntar ao cortejo", diz Mattos. "Por isso, pode ser considerado o pai ou o avô dos blocos de hoje. Com o Zé Pereira, até as chamadas máscaras avulsas — pessoas fantasiadas que estavam na rua — podiam se integrar ao cortejo”, afirma. Grupo de Zé Pereira português em 2022 na romaria de Nossa Senhora da Agonia Vitor Mattos/Arquivo Pessoal O sapateiro José Nogueira Charge de 1908 do jornal 'O Malho' sobre repressão ao Zé Pereira e ao Maxixe Foto: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil Durante muitas décadas, atribuiu-se a origem do primeiro Zé Pereira no Rio à iniciativa de um sapateiro português chamado José Nogueira, que teria iniciado a brincadeira em 1846. Essa versão foi alimentada principalmente pelo folclorista Vieira Fazenda em um livro publicado em 1904. Segundo o relato, inspirado nos costumes das romarias, o grupo teria alugado tambores e zabumbas e saído tocando os instrumentos “alugados às pressas” pela Rua São José, no Centro do Rio, onde Nogueira mantinha um estabelecimento. Vieira Fazenda chega a fazer uma longa descrição física de Nogueira: “Carão amorenado e simpático, olhos brejeiros, bigode curto e grisalho, cabelo todo branco e à escovinha, barba escanhoada, altura regular, ombros e cadeiras largas, peito cabeludo, musculatura de atleta, sempre em mangas de camisa, calça de brim pardo apertada ao amplo abdome por estreita correia”. Entretanto, como observa Mattos, entre o relato de Vieira Fazenda, difundido a partir do início do século XX, e o suposto primeiro cortejo, os Zés Pereiras já eram descritos inúmeras vezes na imprensa da segunda metade do século XIX, sem qualquer menção ao sapateiro. “Eu acho que a introdução do Zé Pereira no Brasil é uma transposição coletiva. As pessoas do Norte de Portugal vieram e começaram a sair com os Zés Pereiras, assim como houve a transposição de outros folguedos, como os ranchos. Os ranchos de reis baianos, no fim do século XIX, são transportados do período do Natal e do Dia de Reis para o carnaval carioca e se transformam nos ranchos carnavalescos”, exemplifica. A ideia inicial da introdução dos ranchos no carnaval carioca é frequentemente atribuída a Hilário Jovino, compositor e agitador cultural baiano. A marchinha Referência ao Zé Pereira na Revista Bazar Volante, de 1866 Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil O sucesso do Zé Pereira na cultura popular brasileira teve seu ápice em 1869, quando a Companhia Teatral Heller encenou a paródia Zé-Pereira Carnavalesco, na qual o comediante Francisco Correia Vasques cantava a famosa quadrinha: “E viva o Zé Pereira Pois que a ninguém faz mal Viva a bebedeira Nos dias de carnaval” Há pesquisadores que acreditam que essa foi a primeira letra de música de carnaval composta no Brasil — a melodia era uma paródia da quadrilha francesa Pompiers de Nanterre. Outros historiadores, porém, atribuem a inauguração das músicas compostas especificamente para o carnaval a Chiquinha Gonzaga e seu Ó Abre-Alas, de 1899, com letra e música de autoria da compositora. Durante décadas, os Zés Pereiras fizeram sucesso e coexistiram com outras formas de folia carnavalesca. A brincadeira se espalhou pelo Brasil, alcançando estados como Minas Gerais — onde ainda há apresentações e encontros — e Pernambuco, onde dá nome ao sábado de carnaval. Herança no carnaval do Rio No Rio de Janeiro, o Zé Pereira perdeu força no início do século XX, principalmente após as reformas urbanas de Pereira Passos e com o crescimento de outros folguedos — ranchos, cordões e, posteriormente, as escolas de samba — que ganharam a preferência popular. O espírito zombeteiro e irreverente da versão brasileira dessa brincadeira, entretanto, segue vivo, assim como a marchinha que leva seu nome, executada até hoje em blocos como o Cordão da Bola Preta e o Cordão do Boitatá, dois dos mais queridos do Rio. “Não tem como colocar um cortejo na rua sem saudar essa energia do carnaval, da brincadeira, do bloco de sujo, da alegria, da fantasia. Essa música [a Marchinha do Zé Pereira] é um ponto carnavalesco que todo mundo sabe cantar e, no momento em que a gente toca, todo mundo sabe que a brincadeira vai começar, assim como Ó Abre-Alas, da Chiquinha Gonzaga”, diz o músico Kiko Horta, um dos fundadores do Cordão do Boitatá. "Antes de tocar essas músicas, a gente toca Coisa nº 4, do Moacir Santos; um maxixe anônimo do século XIX; O Trenzinho do Caipira, do Villa-Lobos, com letra do Ferreira Gullar. Mas é quando a gente toca o Zé Pereira que o carnaval se instaura”, acrescenta. Grupo de Zé Pereira na Revista Careta, em 1911 Acervo da Biblioteca Nacional - Brasil