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Quando o clima muda no campo, o reflexo chega à mesa dos tocantinenses

Nos últimos anos, produtores rurais do Tocantins passaram a lidar com uma pergunta cada vez mais frequente no campo: vai chover demais ou vai faltar chuva? A i...

Quando o clima muda no campo, o reflexo chega à mesa dos tocantinenses
Quando o clima muda no campo, o reflexo chega à mesa dos tocantinenses (Foto: Reprodução)

Nos últimos anos, produtores rurais do Tocantins passaram a lidar com uma pergunta cada vez mais frequente no campo: vai chover demais ou vai faltar chuva? A irregularidade do clima, marcada por períodos prolongados de seca ou volumes excessivos de chuva concentrados em pouco tempo, tem imposto novos desafios à produção agrícola e traz reflexos que vão muito além das lavouras. Chuvas irregulares no campo alteram o calendário agrícola e influenciam a produção de alimentos no Tocantins. Pedro Silvestre No estado, o clima sempre foi um fator decisivo para o sucesso da safra, mas as variações se tornaram mais intensas e imprevisíveis. Chuvas fora de época, veranicos em fases críticas das culturas e excesso de umidade no período de colheita afetam a produtividade, elevam custos e exigem decisões rápidas por parte dos produtores. Atrasos no plantio da soja aumentam os riscos para a segunda safra e ampliam os desafios da produção agrícola. Divulgação/Adapec Esse cenário já começou a se refletir na safra atual. No início do ciclo 2025/2026, chuvas irregulares atrasaram o plantio da soja em várias regiões do Tocantins, com registros de produtores que só conseguiram semear até 20 dias fora da janela ideal. Esse atraso compromete o calendário agrícola e acende um alerta para a segunda safra, já que o milho e outras culturas, como gergelim e feijão dependem diretamente do momento em que a soja é colhida. Quanto mais tarde o plantio, maior a exposição a riscos climáticos, como estiagens no final do ciclo ou excesso de calor, reduzindo o potencial produtivo. Os impactos não ficam restritos ao campo. Quando o clima compromete a produção, o reflexo chega às cidades na forma de menor oferta de alimentos, aumento de preços e instabilidade no abastecimento. Grãos como soja e milho influenciam diretamente a cadeia alimentar, do óleo de cozinha às carnes, ovos, leite e derivados. Uma quebra ou atraso na safra tende a pressionar custos ao longo de toda a cadeia. A presidente da Aprosoja Tocantins, Caroline Barcellos, avalia que o clima deixou de ser um assunto restrito ao produtor rural. “O produtor convive diariamente com o risco climático, mas os efeitos não ficam só na lavoura. Quando a chuva atrasa, falta ou vem em excesso, isso impacta a produção, os custos e, mais adiante, o preço dos alimentos. Por isso, falar de clima no campo é falar do que chega à mesa das famílias nas cidades”, afirmou. Eventos climáticos extremos no campo impactam a oferta de alimentos e chegam ao bolso do consumidor nas cidades. Marcos Bravin/Canal Rural. O tema também foi abordado pelo biólogo e palestrante da Abertura Nacional da Colheita da Soja 2025/2026, Richard Rasmussen, que destacou a dependência direta do produtor em relação às condições climáticas. “O produtor rural é, de certa forma, sócio do clima. Toda a produção está vinculada à chuva e à seca. Qualquer descompasso interfere diretamente no resultado. Existe uma mudança climática, isso ninguém nega, e ela se tornou um dos grandes desafios do produtor hoje, porque aquela previsibilidade de plantar em um período e colher em outro já não é mais garantida”, comentou. Ao falar sobre o papel do agricultor diante das discussões ambientais, Richard ressaltou que a realidade brasileira é diferente do que muitas vezes se imagina. “O produtor rural brasileiro que segue o Código Florestal é um grande aliado da conservação. Ele preserva áreas de reserva legal e de preservação permanente e, ao mesmo tempo, entrega recordes de produção de grãos e alimentos. Ele cumpre o papel de alimentar e vestir as pessoas enquanto cuida das florestas”, afirmou. Para quem vive nas cidades, Richard reforça que compreender essa relação é essencial. “Se o produtor perde 20% ou 30% da produção por causa do clima, quem paga essa conta é o consumidor, no caixa do supermercado. Torcer para que o agro tenha sucesso não é só defender o campo, é proteger o próprio bolso”, disse. Diante desse cenário, produtores têm buscado estratégias para se adaptar, investindo em manejo do solo, práticas conservacionistas, cultivares mais resistentes e planejamento climático. Ainda assim, os eventos extremos mostram que o clima passou a ser um fator central não apenas para o campo, mas para toda a sociedade. O clima imprevisível se tornou um dos principais desafios da produção agrícola e influencia diretamente o dia a dia da população. Pedro Silvestre No fim das contas, a chuva que falta ou que vem em excesso ajuda a explicar por que alguns alimentos ficam mais caros ou escassos. O que acontece na lavoura influencia diretamente o cotidiano urbano, mostrando que o clima no campo também define o dia a dia de quem vive nas cidades.