'Passava de um homem para outro todas as noites': as gangues que exploram sexualmente adolescentes em Londres
Milly (nome fictício) sofria abusos sexuais quase todas as noites BBC Aviso: Esta reportagem contém descrições de abuso sexual Mulheres vulneráveis e adole...
Milly (nome fictício) sofria abusos sexuais quase todas as noites BBC Aviso: Esta reportagem contém descrições de abuso sexual Mulheres vulneráveis e adolescentes a partir de 14 anos estão sendo atraídas por gangues em Londres para um mundo de sexo forçado, revela uma investigação da BBC. Algumas vítimas contam que foram estupradas por vários homens como "pagamento" por dívidas de drogas não quitadas, acumuladas junto às gangues que as controlavam. Outras dizem que foram aliciadas apenas para fins sexuais. Nossas evidências — baseadas em entrevistas com dezenas de pessoas na capital britânica ao longo de várias semanas, incluindo cinco sobreviventes da violência praticada por gangues — também mostram como meninas são frequentemente atraídas por grupos de homens para traficar drogas, negociar armas e roubar celulares. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Um policial em Londres afirmou que jovens e mulheres eram o "degrau mais baixo" nas gangues e eram aliciadas e exploradas "em tudo". A atenção pública sobre essas gangues de aliciamento tem frequentemente se concentrado no norte da Inglaterra. Um relatório encomendado pelo governo no ano passado concluiu que, em três regiões — Grande Manchester, South Yorkshire e West Yorkshire —, havia evidências suficientes para mostrar "números desproporcionais de homens de origem asiática entre os suspeitos de exploração sexual infantil em grupo". A investigação da BBC revela um quadro complexo em Londres, com gangues de diferentes origens étnicas, incluindo brancos, atuando amplamente na capital e explorando frequentemente jovens mulheres. No ano passado, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, afirmou que não havia "indicação de […] gangues de aliciamento" — do tipo visto em Rotherham e outras cidades — operando na capital. No entanto, um porta-voz de Khan disse recentemente à BBC que ele queria apoiar a polícia para fazer tudo o possível para combater "toda exploração sexual infantil na capital, incluindo gangues de aliciamento". 'Não achava que era vítima' Kelly disse que havia sido aliciada por três homens brancos na capital. Inicialmente, foi forçada a traficar drogas, mas contou que a exploração depois piorou. "Eu não tinha dinheiro, me sentia negligenciada e vi uma oportunidade de fazer parte de algo, então acabei fazendo algumas conexões ruins e, em pouco tempo, estava vendendo drogas nas ruas", disse Kelly. Os nomes das entrevistadas foram trocados por questões de segurança. "Mas isso acabou se transformando em ter relações sexuais para manter as pessoas do nosso lado quando devíamos algo, ou [como forma de atrair para que] comprassem drogas de mim e da gangue", completou ela. "Eu não sentia que estava sendo aliciada ou explorada. Eu não achava que era uma vítima. Demorei para perceber que fui usada e manipulada." "Isso deu um propósito à minha vida por um tempo e me fez sentir necessária", acrescentou Kelly. "Eu não sentia isso em casa. Estava procurando algo porque [me sentia] sozinha e entediada." Meninas que participam das gangues "não podem dizer não ao sexo", afirmou o detetive sargento John Knox, chefe da equipe de exploração infantil da Polícia Metropolitana nos distritos de Lambeth e Southwark, no sul de Londres. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse recentemente que quer apoiar polícia no combate às gangues BBC "Dentro desse mundo das gangues, as meninas estão no degrau mais baixo e têm que fazer o que lhes mandam. E isso inclui sexualmente." Ele disse que as meninas não eram exploradas "predominantemente e principalmente para sexo" pelas gangues. "As meninas são aliciadas e exploradas para tudo — e dentro disso está o sexo." Knox acredita que há pelo menos 60 crianças em sua área no sul de Londres que estão sendo exploradas por gangues. Ele disse que as meninas têm apenas 13 anos, mas "15 seria o limite máximo". "A realidade é que, se uma menina não pode dizer não, ela está sendo estuprada — e é assim que nós, como polícia, encaramos a situação." Problemas com gangues no radar da polícia Um porta-voz do prefeito de Londres disse que "qualquer indivíduo, grupo ou gangue de aliciamento que explore crianças para sexo é absolutamente abominável e [Sadiq Khan] quer justiça para cada vítima desses crimes horríveis". "O prefeito deixa claro que a Polícia Metropolitana deve seguir as evidências onde quer que elas levem e continuará garantindo que faça tudo o possível para combater toda exploração sexual infantil na capital, incluindo gangues de aliciamento, para construir uma Londres mais segura para todos", disse a fonte. O comissário adjunto da Polícia Metropolitana, Kevin Southworth, afirmou que a questão das gangues de aliciamento estava "muito alta" no "radar de ameaça e risco" da corporação e que havia o compromisso de destinar o máximo de recursos possível para enfrentar o problema. "Estamos muito cientes do risco das gangues de aliciamento aqui em Londres e de sua prevalência", acrescentou. Assistentes sociais em contato com as vítimas dizem que muitas são vulneráveis, com origem em lares disfuncionais ou tinham históricos problemáticos, como abuso, drogas ou pobreza. A jovem Milly contou à BBC que sua experiência com gangues de aliciamento em Londres não envolveu tráfico de drogas e refletia o que havia acontecido em cidades como Rotherham, Rochdale e Oldham. "Eu tinha 15 anos. Estava sendo passada de homem para homem todas as noites — às vezes 10 ou 15 por mês", disse ela. "Eles simplesmente nos davam bebida, nos davam drogas. Quando percebia, já estava no quarto com um deles. Depois saía. Podia ser outro. Depois podia ser mais um. Às vezes era só um. Às vezes podiam ser três. E então simplesmente íamos embora." Ela disse que, embora isso tenha acontecido há alguns anos, não conseguia lembrar muitos detalhes porque estava muito intoxicada na época. "Eu realmente não lembro os nomes deles. Sei que parece horrível dizer, mas só sei que eram [sul-] asiáticos." "Às vezes eles apenas diziam: 'Ah, você é uma jovem garota branca bonita.'" 'Só queriam sexo' Outra sobrevivente em Londres, a quem chamamos de Ruth, disse que também foi explorada sexualmente. "Eles não queriam nada além de sexo. Eu estava fragilizada e eles me davam coisas caras, então me senti desejada e acabava dormindo com eles. Parecia que eu tinha vários namorados me dando atenção. Eram homens do sul da Ásia — eles se aproveitaram da minha situação." "Isso está acontecendo em Londres", acrescentou. "E aqueles que não acreditam nisso precisam olhar novamente." As mulheres com quem conversamos dizem que suas histórias provam que nem todos os casos de gangues de aliciamento na cidade envolvem tráfico de drogas e outras atividades criminosas. No entanto, um advogado alertou contra generalizações raciais sobre os autores. Alan Collins, do escritório Bolt Burdon Kemp, especializado em casos de abuso infantil, disse que representa várias sobreviventes que foram aliciadas, incluindo mulheres em Londres. "Acho que é preciso ter muito cuidado ao tirar qualquer conclusão, já que há uma falha absoluta em registrar nacionalmente a origem étnica dos homens condenados por abusar dessas crianças e jovens", afirmou. Policiais, assistentes sociais e algumas das sobreviventes com quem conversamos insistem que as gangues que atuam em Londres vêm de origens étnicas muito diversas. "Pelos relatos que temos, não vemos um número desproporcional de suspeitos de uma etnia ou nacionalidade específica, mas sim de toda a gama diversa das comunidades londrinas, como seria de esperar em uma cidade multinacional como Londres", disse Southworth, comissário adjunto da Polícia Metropolitana. Uma vítima em Londres com quem falamos disse que sua experiência envolveu homens de "diferentes raças, idades e religiões". Cerca de 2 mil casos de exploração infantil são relatados à Polícia Metropolitana todos os anos. Esses casos dizem respeito à exploração sexual infantil, exploração criminal infantil ou situações em que ambas as formas de abuso estavam presentes. A Polícia Metropolitana já anunciou que irá reexaminar pelo menos 1.200 casos, após uma revisão nacional sobre exploração sexual infantil em grupo. Inquérito independente Um relatório do ano passado da baronesa Louise Casey, membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido, também identificou inconsistências na forma como a Polícia Metropolitana registrava casos de abuso infantil. A corporação afirmou que houve melhorias significativas na forma de identificar e investigar crimes em grupo, incluindo treinamento para 23 mil policiais da linha de frente e a expansão de suas equipes de exploração infantil. Um inquérito independente sobre gangues de aliciamento, presidido pela também baronesa Anne Longfield, deve começar ainda este ano. Um porta-voz do Ministério do Interior disse que o inquérito terá "plenos poderes para exigir provas e realizar investigações locais". Ele acrescentou que casos de exploração sexual infantil que haviam sido encerrados estão agora sendo revisados, "para que os perpetradores malignos que cometeram esses crimes — e pensaram que haviam escapado — não tenham onde se esconder".